«Sinto que detenho o controlo. Sinto que estou por detrás dos monstros que crio e que consigo ver os fechos de correr nas suas costas.»
Stephen King
Um olhar de "criador" sobre a criatura a lembrar (de imediato) a história de Frankenstein. Um Frankenstein contemporâneo, note-se. Natural de Maine, nos EUA, onde nasce no ano de 1947, Stephen King completa a maior parte do seus livros de uma inicial bucólica pacatez para, num apurado mecanismo de intriga e horror, resolver a temática do medo e dos demónios que assobram as suas personagens - e que nos assombram a nós. Visitando os temas da sobrevivência e da vingança, parece contudo assegurar o triunfo do mais fracos e vulneráveis. Um senso de justiça que admite mas que não escamoteia em fácil emotividade. Nessa bucólica e aparente harmonia escava inesperados monstros, encontra a loucura e revela diabólicas obsessões. No entanto, é sensível à fragilidade da infância, ao abuso de poder sobre os mais fracos, às fraquezas e forças humanas. Uma mistura explosiva de terror e de uma atenta sensibilidade com as algumas figuras marginalizadas pela sociedade.
«Penso que a maior parte dos homens está sintonizada para actos de violência, normalmente defensiva, mas penso que ainda somos criaturas muito primitivas e que temos uma real tendência para a violência.»
Stephen King, Salon.com
Uma violência que detecta em gestos banais, no quotidiano de aparentes banalidades. Apelidado por muitos de "mestre do horror", Stephen King escreveu a sua primeira história com apenas sete anos de idade. Tendo vivido entre Massachusetts e Maine após o abandono do pai quando tinha três anos, King começou por escrever uma coluna regular no jornal escolar "The Maine Campus". Na University of Maine estuda Inglês mas quando se prepara para dar aulas não consegue arranjar emprego. Começa então a trabalhar numa empresa de lavandaria e escreve pequenas histórias em revistas masculinas (reunidas mais tarde em "Night Shift"). Em 1971 começa finalmente a dar aulas de inglês na Hampden Academy e três anos depois edita o seu primeiro grande sucesso, "Carrie" (adaptado ao cinema). O sucesso torna-o um escritor a tempo inteiro contando hoje mais de 300 milhões de exemplares vendidos em cerca de trinta e cinco países (em mais de trinta línguas). Números impressionantes a fazerem jus ao seu estatuto de escritor mais bem pago no mundo. Em 1999, após um grave acidente que quase o deixa paralisado, escreve "On Writing", uma autobiografia em que conta o sucesso, as dependências e a sua forma de escrita. Na viragem do milénio o autor americano aposta na internet criando o seu site (www.stephenking.com) onde edita histórias inéditas como "Everthing's Eventual" e "Riding the Bullet", permitindo o download do romance "The Plant" que se propunha a vender a um dólar por capítulo (o download acaba por suspenso em finais de Novembro de 2000).
«King, ao contrário de muitos escritores de best-sellers, é um escritor apurado, um mestre das regras do thriller e do enredo de terror. Sabe os truques todos e sabe definir uma personagem e descrever um ambiente, sabe manejar um crescente dramático e aprontar um desfecho original.»
Clara Ferreira Alves, Expresso
Um "aprontar" que contribuiu em muito para o reafirmar da literatuta de horror convocando o imaginário de Mary Shelley, Bram Stoker e Edgar Allan Poe. Andrew O'Hehir, em artigo editado no "Salon.Com", vai mais longe e associa-o a Charles Dickens. «King e Dickens partilham a mesma capacidade para impudicamente tecerem histórias sentimentais e partilham o mesmo amor pelo grotesco; ambos usam os seus dotes literários para iluminar os males da sociedade contemporânea.»
Contemporâneos distintos, mas com similar jogo de sombras e mistérios. Numa acutilante observação de pessoas e medos, Stephen King acerta detalhes de intriga com a precisão do mestre de relojoaria. Tudo se joga com tudo, tudo se liga num mesmo mecanismo de descoberta.